domingo, 27 de dezembro de 2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Rosa às 5 da tarde

Rosa às cinco da tarde olha o relógio e faz cinco anos. Brinca com o novelo de lã vermelho. Rosa às cinco da tarde e é Inverno e neva lá fora. Vê uma árvore despida no frio, respira para o vidro e o vidro embacia. Rosa às cinco da tarde e o avô na poltrona que adormeceu. E o papel de parede às flores. E a lareira acesa. E o novelo que se desfiou. Rosa e a árvore nua, a neve e o silêncio, quer brincar. Faz anos. Rosa! - às cinco da tarde, ninguém chegou a gritar. O avô acorda, enrola o novelo, põe-no na panela para o jantar. Chucha nas pantufas e começa a fazer caretas. Eram Rosa às cinco da tarde quando Rosa não voltou mais.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A história do Rolando

Veio-me uma ideia à cabeça. Duas, aliás. Mas uma delas deixou-me nervosa.
Que um homem, o Rolando mordia a orelha a outro homem, um transeunte. O Rolando trabalhava num talho. Era um Homem simples, não acabara o 9º ano. Era gorducho, já estava quase careca, apesar dos seus 26 anos. Nunca lhe vi barba.Era um Homem com pouco pêlo. Andava anormalmente com a bata do talho para todo o lado mas toda a gente o conhecia através do vidro da montra da carne.

O Rolando vivia a branco e a vermelho.
Ou melhor, vivia a branco sujo de vermelho. Salpicava-lhe sangue na bata, orgãos moles também. Bocados de tripa às vezes. Era um homem muito físico e sensual na maneira delicada com que lidava com a carne. Tendo especial devoção à carne de porco - sendo o porco um animal por excelência curvilíneo. Gostava muito de transformá-lo em bifanas ao gosto dos clientes. Em paralelepípedos de bifanas ou nacos geométricos medidos a régua e a esquadro. A forma ou a divina escultura do porco ganhava sentido nas suas mãos gorduchas. Já os bovinos - esses bichos angulosos, escandalosos até! Nunca os apreciou, Rolando, o rotundo.

O talho não tinha muita afluência. Nem nas horas frias da manhã, nem no sol do meio-dia, nem na hora do lanche, nem antes da hora de fecho. Uma pacatez. A localização era das piores, situado numa zona fabril, só velhotes se abasteciam da carne daquele talho. Os velhotes teimavam em morrer, viviam e viviam só para chatear a Câmara que queria transformar aquilo num sofisticado parque industrial monumental e substituir os tijolos cinzento-alaranjados por liga sintética de metálico-cromados.

Mas nunca morriam, ninguém. Teimavam, os velhos casmurros e rebeldes. De modo que aquela zona da cidade, ou paracidade, era fábricas de destilação de resíduos, era habitantes cuja esperança de vida desesperava muita gente e uma rua que se chamava a Rua Rosa-dos-Ventos porque não ia dar a lado nenhum, porém era "super beautiful" como diziam os moradores, naquele sotaque próprio que todos nós associamos à gente idosa e castiça.

Como já disse, Rolando era feito de branco e vermelho. Se misturássemos o que nele havia de branco com o que nele havia de vermelho, teríamos um bonito cor-de-rosa bebé. Tinha ar de porquito, mas não de suíno. Isso sabia ele bem, pois a mãe sempre o tratara por Porquinho Babe. Aos 16 tinha proibido a mãe de o tratar assim, que já era homem e tal. Mas, enfim, o hábito venceu. Os suínos, sempre pensou, eram o pai ou tio, que bebiam e arranjavam confusão no café até que foram mortos por cirroses da PSP.

FIM

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Extracto do diário da Drª Beffy Santiago


Mais um dia para esquecer. Tenho pilhas de Direito Económico a amontoarem-se na minha secretária, estou com umas dores de cabeça horríveis. E.. o meu contacto na Randolph&Drone resolveu perder o Blackberry logo hoje!! E depois delegam sempre tudo em mim, claro ...porque é solteira, porque não tem filhos, porque isto e aquilo e aquele outro. Onde raio me fui meter, "Dá à Beffy, que ela trata" - Se o cretino do Baltasar entrar no meu gabinete amanhã de manhã a perguntar se conseguimos o cliente, eu juro que lhe atiro com os Decretos-Lei e a inteira Regulação do Mercado à cara. A Lara do Salão diz que me ando a desleixar, pudera..! tenho lá eu tempo para ir arranjar o cabelo e as unhas. Como se alguém notasse, pff. Burra de carga, Beffy! Burra de carga! Diz que desde o divórcio ...bolas, quatro anos como passam. Enfim, a Lara tem razão. Isto não pode continuar. Espera só para veres, Baltasar: acho que a Randolph&Drone se vai cortar. O quê? Eu? Eu vou sair mais cedo Baltasar, tenho uma reunião importante com a Lara do Departamento da Vida.



Nota: Beffy deixou a firma onde trabalhava e tornou-se famosa colunista numa prestigiada revista de enologia onde conheceu o seu parceiro actual, um empresário vinícola do Norte. Baltasar foi despedido por ter perdido a R&D e não ter tido bom poder de argumentação para defender a sua mais-valia na empresa.

Extracto do diário do poeta/escritor Jaquelino Bragão Travassos

Que a terra húmida, como ventre primordial me acolha de novo neste vendaval silencioso em que me encontro, ò eterna paz e revolução da juventude, vós sumistes tal como a luz que agora vejo, coada pelos vitrais desta catedral a que o povo chama velhice. Tudo é neblina e já não vejo o sangue pulsar-me nas veias nem o ímpeto do jovem que eu era. A miudagem é a força, o bulício da brincadeira, o murmúrio constante de um riacho que corre e corre e não cansa até que alguém diz pára, chegaste ao mar, agora descansa. Ninguém avisa, não há sinais, corre e escorre a vida por entre vales, rochas, montanhas e barragens que inadvertidamente construímos para nós. Num só sentido corre contra-relógio, para esse eterno retorno à terra que nos viu nascer. Vivo em memórias, enquanto Deus mo permitir. Vivo no pretérito-perfeito quando nada na vida foi perfeito. Tal é a tristeza de envelhecer.


Nota: Jaquelino B. Travassos nunca chegou a ultrapassar a barreira do anonimato. Ele também nunca existiu. Considerava-se acima de tudo um poeta com raízes profundas na sua terra natal onde era muito admirado por todos, e de onde nunca saiu. Aí veio a falecer.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Homem sem Qualidades - Tomo I

Custa-me a acreditar que o tempo que andei a ler "O Homem sem Qualidades - Tomo I" do Musil me tenha enchido a cabeça de nada. De modo que fui dar uma espreitadela ao livro e espremer algum conteúdo para aqui, para o meu bem, para ter a certeza que aquelas horas com 3 kilos de livro em cima do abdómen não tenham sido em vão.

Ora. Temos "Homem", temos "sem" e temos "Qualidades".

O Homem age, pensa e sente. Encontramos nesta obras três personagens extremamente inteligentes às quais lhes são dadas Qualidades, mas com parcimónia. Assim:

1.Arnheim
--> Realidade onde a sua qualidade se manifesta: Mundo Material
--> Défice Sentimental e de Abstracção

Este é o Homem que age. Pensa para agir, age em função do que pensa: o homem cujo pensamento é 100% aplicado. É Homem de Acção, com todas as implicações éticas e morais que daí advêm: certo versus errado, bem versus mal. Grande homem de negócios, rico, começou do nada para se tornar dono de um grande império económico nas mais variadas áreas. Os jornais admiram-no. Anda ali num impasse obtuso com Diotima porque a paixão não lhe parece motivo válido para agir. Não consegue compreender Ulrich porque este não se materializa em obra feita. Mas reconhece-lhe valor através das conversas que tem com ele. Teme-o de certa maneira pela sua imprevisibilidade. É o único dos três ao qual a sociedade mais aburguesada lhe reconhece mérito. Estranhamente, é alemão e não austríaco.

2.Ulrich
-->Realidade onde a sua qualidade se manifesta: Mundo da Abstracção
-->Défice Sentimental e Material

Este é o Homem que pensa. Ao contrário de Arnheim, Ulrich é o empirista que do mundo real extrapola e constrói novas realidades. Consegue racionalizar praticamente tudo num discurso envolto em hiper-lúcidez. Não toma partido, é diletante no que toca às áreas do saber. Propõe a abolição da realidade em termos teóricos, mas acaba perdendo-se nos meandros desta mesma. É um relâmpago, nunca se deixa apanhar mas dá fogo de vista quando quer nos círculos onde se move. Dá sempre a sensação de que não tem nada a perder - outros como Arnheim e Walter invejam-no por isso. É distante, indiferente e vive em estados puros internos, em ideias. Atira os dados ao destino e os outros vêem nisso tolice ou coragem. Lida com as paixões de uma forma física quase animal. Talvez porque os instintos não podem fazer parte de algo a que se possa chamar teoria ou equação. Já os valores ético/morais de Ulrich são bastante ambíguos e os seus limites esbatem-se para dar lugar a debate sobre até onde o ser humano pode ir, como no caso Moosbrugger.

3.Walter
-->Realidade onde a sua qualidade se manifesta: Mundo do Sentimento
-->Défice de Abstracção e de Matéria

Este é o Homem que sente. Era o melhor amigo de Ulrich e às vezes quer acreditar que ainda é - tem uma relação amor-ódio com ele. Não se cansa de tocar Wagner ao piano. Acha que a arte sublima a vida, mas os constantes coices que a vida lhe deu acabaram por transformá-lo numa pessoa tristonha. O casamento com a louca da Clarisse tornou-se um inferno. Ulrich provoca Walter, mas Ulrich não tem a percepção do quanto consegue magoá-lo. Toda a gente consegue magoar Walter. Walter já não toca o piano por lhe dar prazer, toca-o obsessivamente para calar a dor que tudo e todos lhe provocam. Se Walter conseguisse agir como Arnheim, pensando em função de algo concreto livrar-se-ia de Clarisse. E se Walter se abstraísse, por momentos, de tudo e visse uma tela limpa como Ulrich faz, onde depois se põe pintando cenários hipotéticos, Walter faria uma bela Sinfonia.

Tenho que mencionar o General Stumm que se põe a cartografar as ideias da Acção Paralela! um Mapa de ideias! Este General é mesmo engraçado.


e prontos. espremi alguma coisa... já me sinto melhor.
Conclusão:
1. São todos homens *sem qualidades suficientes* para... alguma coisa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

europeias '09

O Vital Moreira parece um espantalho!, não consigo olhar para a televisão sem fazer um esforço enorme para não me sair um chorrilho de asneiras contra aquela figura. o Homem fala para dentro. não se ouve o que ele diz! alem disso parece um manequim poeirento de uma boutique de senhores dos anos 40 que ficou esquecido na montra durante décadas. Tire a laca do cabelo, não penteie o bigode! solte o seu lado selvagem! use StudioLine. Quem será o Consultor de Imagem do Vital? Você não fez um bom trabalho.

O Paulo Rangel surpreendeu pela positiva. Mas tenho um estranho ..qq coisa.. que ele é capaz de estar muito mais bem cotado no eleitorado feminino. Isto tem a ver com o facto de eu achar que ele seria o perfeito genro para muitas wannabe sogras. E sim, o fato Dick Tracy dos cartazes eventualmente vai capitalizar muito nas urnas. Não estivesse o PSD o pântano que está, o Sr. já podia fazer pontaria às estrelas.

O Nuno Melo devia cortar esse cabelo. Você tem ar de betinho. Nem os clientes do BPP vão votar em si. Você tem cara de anjinho vestido de neo-con. Já ninguém gosta dos neo-cons. E em termos de anjinhos, o Rangel também tem umas bochechas de invejar. Devia sorrir mais. Nunca o vi sorrir, Nuno Melo. Esta sempre com ar extra-preocupado! extra-stressado! extra-indignado! Não franza tanto as (já farfalhudas) sobrancelhas sff. A nação já tem rugas de preocupação que cheguem.


O Miguel Portas, é.. às vezes confundido com "O Portas". Não, não. Este é o "o Outro". Não, Miguel Portas. Você não é o "Outro Portas", você é o "Miguel Portas". Você é alto, tem uma careca que lhe fica bem, é luzidia. Como um farol. Mas fica-lhe bem. E você ostenta-a com porte. Mas devia beber mais café. O seu ar sonolento embala quem o ouve, logo deixa de o ouvir. O Bloco de Esquerda deveria considerar substituir a sigla BE por Bloco. Porque, sejamos francos, ouvir um senhor idoso barrigudo de peito ao léu a dizer que vai votar no BES não cai bem nem ao BE nem ao BES (que prefere o Ronaldo a dizer coisas destas).

A Ilda Figueiredo tem carisma. Troca os b's com v's às vezes. Mas vejo nisso uma mais valia. Uma portugalidade, um sinal à la Cindy Crawford. A 200 mil km de distância diria logo "Aí está, essa senhora deve ser a da CDU". E é. Não foge à cartilha. Mas o PCP nunca foge à cartilha. A Ilda Figueiredo também não. Se eu a desafiasse a usar StudioLine, meias de rede e saltos agulha e se ela o fizesse eu não ia gostar. Teria medo. Daí a nada estaria a dar com a foice na pedra e com o martelo no trigo. Por isso é que está bem como está Ilda Figueiredo.


Há mais candidatos.. mas não me apetece escrever mais.
ou
Há mais candidatos.. mas estes "deslumbram" mais.


serviço público: http://www.euprofiler.eu/

terça-feira, 19 de maio de 2009

segunda-feira, 27 de abril de 2009

a velha



encontrei esta cara num quadro de um pintor famoso que já não me lembro qual é e copiei-a
mas também não tenho paciência para ir procurar a cara da velha e em que quadro está e qual o pintor famoso.

sábado, 14 de março de 2009

mamãrobot

Mamãrobot é um cristal, Mamãrobot é pedra dura, Mamãrobot veio doutro sítio. Mamãrobot é roupa suja, tábua-de-engomar e alguidar. Mamãrobot está sempre a tropeçar. Mamãrobot veio de muito longe, com um saco preto enfiado na cabeça e uma mala a tira-colo. Parecia um susto!

Mamãrobot anda em casa, e tem direcção assistida. Mas está sempre a tropeçar. Às vezes enche-se de ar para não se magoar. Mamãrobot é de um cinzento cromado, ela lava e seca lágrimas sem cobrar. Mas ela própria não pode chorar, porque assim vai enferrujar. Tem que beber óleo preto para funcionar.

Coitada Mamãrobot!

quinta-feira, 5 de março de 2009

a rosa sem senão/refresco de limão

Trazes-me um refresco? Marte e Júpiter esperam por mim, trás e frente são-no ao avesso, Mas isto já não dá nada com nada, E eu morro de solidão. Estou só de Sol ou lá de Lá ou dó de Dor: que não posso sem um desejo de morrer ou desesperar, E fico assim, No abismo abismada, Nem só de Sol ou lá de Lá, só dó de Dor.

Ouve o teu respiro, Olha o teu umbigo, Diz-me o que vês e traz-me a solução, De que não, Há Rosas sem senão. E depois deixas-me em paz, Trazes-me um refresco de limão, Porque Marte e Júpiter chamam por mim. E dás-me boleia até ao céu. Ou então não, e eu dou-te um abraço e posso descansar em Paz.

Deixa-me em Paz! Quero morrer sozinha, ou então com muitas flores coloridas, Rosas sem senão. Quando me vou embora? Marte e Júpiter esperam por mim. Acho que já estou a voar, Sou uma imbecil.

Afoga-te rapariga, Afoga o rapaz também, Tira a coroa ao teu imperador. Maldita Rosa sem flor. Espelho triste, dourado, ò Rei! E a tua coroa de flores mortas. Escuta o teu respiro, Tira-me o sonho da nuvem. Desfá-lo quando eu disser, E dá-me aquilo que pedi: um refresco de limão.

Não tenho pachorra para aturar, Outro mal que não o meu. E sinto-me a morrer, E depois? Perguntas-te. O que queres que eu diga? Meu cretino. Não me afoguei nas tuas rosas mortas. Mas não me queixo de ninguém, Nem de mim.

Estou sozinha e estúpida, feita um bobo da corte. Mas não sou burra, Meu caro rei e progenitor. Deste-me vida, mas deixo-te rei criador. E a ti também, Maldita rosa sem flor. A vós vos condeno!

quarta-feira, 4 de março de 2009

o teu grito

É a espera.
Está frio cá fora, o céu está nublado, e a estrada é tão larga, não a quero atravessar. Não há semáforos onde estou, por isso espero que atravesses tu esta estrada.
Para te pores em perigo por causa de mim. Farás isso? Ou o teu orgulho não to permite? É o meu jogo: Tenho o Ás de Espadas apontado ao teu peito. Sei que não tens medo, pões-te a falar dos filósofos da terra e deixaste de olhar o céu.
Dás-me ouvidos, mas eu peço-te mais. Dá-me a mão e segura-a forte até eu dizer pára.
Alguns carros passam depressa, não têm cor, trazem a velocidade - é a medida do nosso tempo. Há silêncio na velocidade do tempo. E nos intervalos de tempo é que vives. E tu vives em mim. Morres se eu não te der razão de existir.
És o meu divertimento.
Tu falas-me dos teus filósofos, dos teus deuses e poetas. Mas em mim tens a Criação. E assim sou deus. Contentas-te com deus? Corro menos riscos se for um deus, sabes?
Passou agora um carro, vejo longe os prédios dos subúrbios. Vejo a tua vida lá dentro e eu, cá fora, dou-te a escolha da liberdade comigo ou a prisão do teu mundo de fantasmas. Passa o tempo, mas não me julgues aflita, não te dou esse gozo.
Mas já é demasiada noite em cima de mim. Não deixes que o dia nasça sobre mim. Não me deixes. Isso não, tenho medo, mas não to digo.
À noite os cães vadios correm sem medo, os amantes confiam segredos, os lençóis arrefecem dos corpos suados de uma qualquer erupção de vida. As luzes cá fora, morrem pálidas à tua espera e eu com elas.
Tu vens a caminho, corres provavelmente, depois abrandas o passo antes do virar da esquina, regulas a respiração e caminhas sério para mim. O teu coração bate, doí-te o peito, anseias.
Eu disfarçarei o sorriso que me provocas - escondo as mãos, para não pensares que te abraçarei. Podes ficar quieto, que não me magoa o teu silêncio. Deuses orgulhosos que somos nós! Ajoelhamos-nos um ao outro, frágeis. E no entanto, cara a cara, de joelhos, medimos a força um ao outro. E qual de nós vai primeiro cair.
Sentei-me, ali naquele banco de jardim, debaixo daquela árvore.
Não saberás dizer onde estou, agora.
Antecipo o teu olhar de desespero. Se não chamares o meu nome , deixarei de existir e tu só, novamente, também. Por isso quando não me vires, chama por mim. Podes gritar, que não me importo.
Porque é que nunca gritas por mim? Escondo-me de propósito e esforço-me para te ouvir dizer o meu nome. Coisa fugaz que és, foges no tempo. Foges de ti próprio e eu já não tenho força para correr mais. Tu e a tua voz muda! Grita, chora ou ri!
Porque sei que quando gritares, o teu tempo vai parar, e vais cair, e aperceber que só em mim podes cair. Estender-te-ei os meus braços. Podemos ensaiar quando vieres.
Mas quando vieres grita por mim.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

o teu adeus

Tu conheces-me bem. Era eu que te fazia o pequeno-almoço todos os dias. Vim visitar-te outra vez. Recebes-me com a mesma mesma cara.
Custou-me muito andar este caminho todo a pé.
A noite vai alta. Chateia-me o facto de não dizeres "Olá". Eu disse-te "Olá", mas só levantaste os olhos.
Não, não quero saber se tens trabalho ou se interrompi qualquer coisa. Vim porque te encontro sempre aqui. Neste andar vazio.
Estás à espera que eu faça conversa? Já devias saber que não há conversa de cerimónia entre nós. Falamos só daquilo que não pode permanecer em silêncio. Já te trato por tu há muito tempo.
Tu, que finges que a minha visita não te afecta. Tu, que já não me sabes mentir.
Mas eu perdoou-te por já não me conseguires mentir.
Não tenho saudades do teu sorriso de cortesia. Mas queria um "Olá".
Dizes-me o que sentes, zangas-te, irritas-te. Mas eu não me importo. Porque sei que quando me abraças, faze-lo com o coração. E é por isso que venho. E é por isso que não me interessa se tens que ir trabalhar ou estás com pressa.
Venho cá para tu me poderes abraçar. Tu sabes isso. Venho para ti e por ti, para poderes ter um corpo a que te agarrar.
Irritas-te, mas não gritas.
Irritas-te com as minhas visitas, mas deixas sempre a porta aberta para eu entrar. E mais ninguém sabe deste quarto, desta sala, daquela cadeira e da tua cama. Só eu. Deixas-me entrar porque precisas de mim.
Sei que daqui a meia-hora tens que ir fazer o que fazes. E dizes para mim que tens que ir. Que há mundo e vida para além de mim. Eu não me chateio. Faze-lo para marcares a fronteira, os limites implícitos entre dois seres completamente sós.
Vi que estiveste à janela, mas não vês ninguém partir. Fico sempre até tu ires primeiro. Para te dar o meu "Adeus". Mascaro-o de indiferença para ti - o meu "Adeus". Não o faço para te magoar porque eu sei que queres a minha voz. O meu "Adeus" e o teu inaudível "Olá".
Aproximas-te num socorro iminente. E eu olho-te com medo. Afundas a tua cabeça no meu colo. E queres dizer-me que não há que ter medo de ti. Que sentes a minha falta. E isso só.
Estou sentada na tua cadeira a olhar a rua e a luz morta da cidade. Tenho-te no meu colo. Presumo que o meu coração te acalme. Mas tenho sempre medo de quando precisas de mim. Não adormeças, por favor - digo-te eu.
Mas tu ficas um bocadinho mais. Assim, sentado no chão com a tua cabeça no meu colo. E esperas que o mundo abrande enquanto estás comigo. Afago o teu cabelo.
Dez minutos até eu não ouvir o teu "Adeus".

o teu cigarro

Sabia que estarias aqui. Sozinho e o teu cigarro. Acossado e escondido neste ermo no fim do mundo. A tua imagem impressiona-me. Os teus olhos crescem à medida que o teu corpo se esvai. E tudo vai com o tempo, até tu, apesar de não o admitires. Julgas-te para além da vida e da morte.
Pedes-me vida aqui neste ermo. O dia começa para todos menos para ti.
Sei porque queres a minha presença. Queres viver, tens fome. E eu dou-te vida sempre que estou contigo. Sugas-me as forças, sacrifico-me em nome do teu orgulho e da tua fantasia.
Queres ser mais que os Homens. Está frio, o céu está azul - vi-lo nos teus olhos. Ainda mora um céu dentro de ti e sabes que tens esse poder sobre mim. Só que eu alimento essa loucura para não te perder, para que vivas, para além da morte.
Tudo em ti, para além da morte.
E tu deixas-te estar. Sabes que acabo sempre por vir até ti. Em tempos tinhas o sol em ti e dizias-me que que me levarias contigo - lembras-te?
Que subiríamos ambos ao zénite e lá seríamos um. Que o horror e o desespero acabariam no horizonte.
Mas tu continuas aqui, à minha espera. Rei e dono da minha vontade. Apagas o cigarro e, displicente, inclinas a cabeça para trás - e é essa a minha deixa: nunca te deixar.
Lembras-te da primeira vez?
Apagaras o teu cigarro à minha chegada e sorriste. Tudo mudou quando desafiaste o Universo. O mundo ficou mais escuro. Luz negra e fria de um deus menor.