sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

o teu adeus

Tu conheces-me bem. Era eu que te fazia o pequeno-almoço todos os dias. Vim visitar-te outra vez. Recebes-me com a mesma mesma cara.
Custou-me muito andar este caminho todo a pé.
A noite vai alta. Chateia-me o facto de não dizeres "Olá". Eu disse-te "Olá", mas só levantaste os olhos.
Não, não quero saber se tens trabalho ou se interrompi qualquer coisa. Vim porque te encontro sempre aqui. Neste andar vazio.
Estás à espera que eu faça conversa? Já devias saber que não há conversa de cerimónia entre nós. Falamos só daquilo que não pode permanecer em silêncio. Já te trato por tu há muito tempo.
Tu, que finges que a minha visita não te afecta. Tu, que já não me sabes mentir.
Mas eu perdoou-te por já não me conseguires mentir.
Não tenho saudades do teu sorriso de cortesia. Mas queria um "Olá".
Dizes-me o que sentes, zangas-te, irritas-te. Mas eu não me importo. Porque sei que quando me abraças, faze-lo com o coração. E é por isso que venho. E é por isso que não me interessa se tens que ir trabalhar ou estás com pressa.
Venho cá para tu me poderes abraçar. Tu sabes isso. Venho para ti e por ti, para poderes ter um corpo a que te agarrar.
Irritas-te, mas não gritas.
Irritas-te com as minhas visitas, mas deixas sempre a porta aberta para eu entrar. E mais ninguém sabe deste quarto, desta sala, daquela cadeira e da tua cama. Só eu. Deixas-me entrar porque precisas de mim.
Sei que daqui a meia-hora tens que ir fazer o que fazes. E dizes para mim que tens que ir. Que há mundo e vida para além de mim. Eu não me chateio. Faze-lo para marcares a fronteira, os limites implícitos entre dois seres completamente sós.
Vi que estiveste à janela, mas não vês ninguém partir. Fico sempre até tu ires primeiro. Para te dar o meu "Adeus". Mascaro-o de indiferença para ti - o meu "Adeus". Não o faço para te magoar porque eu sei que queres a minha voz. O meu "Adeus" e o teu inaudível "Olá".
Aproximas-te num socorro iminente. E eu olho-te com medo. Afundas a tua cabeça no meu colo. E queres dizer-me que não há que ter medo de ti. Que sentes a minha falta. E isso só.
Estou sentada na tua cadeira a olhar a rua e a luz morta da cidade. Tenho-te no meu colo. Presumo que o meu coração te acalme. Mas tenho sempre medo de quando precisas de mim. Não adormeças, por favor - digo-te eu.
Mas tu ficas um bocadinho mais. Assim, sentado no chão com a tua cabeça no meu colo. E esperas que o mundo abrande enquanto estás comigo. Afago o teu cabelo.
Dez minutos até eu não ouvir o teu "Adeus".

o teu cigarro

Sabia que estarias aqui. Sozinho e o teu cigarro. Acossado e escondido neste ermo no fim do mundo. A tua imagem impressiona-me. Os teus olhos crescem à medida que o teu corpo se esvai. E tudo vai com o tempo, até tu, apesar de não o admitires. Julgas-te para além da vida e da morte.
Pedes-me vida aqui neste ermo. O dia começa para todos menos para ti.
Sei porque queres a minha presença. Queres viver, tens fome. E eu dou-te vida sempre que estou contigo. Sugas-me as forças, sacrifico-me em nome do teu orgulho e da tua fantasia.
Queres ser mais que os Homens. Está frio, o céu está azul - vi-lo nos teus olhos. Ainda mora um céu dentro de ti e sabes que tens esse poder sobre mim. Só que eu alimento essa loucura para não te perder, para que vivas, para além da morte.
Tudo em ti, para além da morte.
E tu deixas-te estar. Sabes que acabo sempre por vir até ti. Em tempos tinhas o sol em ti e dizias-me que que me levarias contigo - lembras-te?
Que subiríamos ambos ao zénite e lá seríamos um. Que o horror e o desespero acabariam no horizonte.
Mas tu continuas aqui, à minha espera. Rei e dono da minha vontade. Apagas o cigarro e, displicente, inclinas a cabeça para trás - e é essa a minha deixa: nunca te deixar.
Lembras-te da primeira vez?
Apagaras o teu cigarro à minha chegada e sorriste. Tudo mudou quando desafiaste o Universo. O mundo ficou mais escuro. Luz negra e fria de um deus menor.