sábado, 14 de março de 2009

mamãrobot

Mamãrobot é um cristal, Mamãrobot é pedra dura, Mamãrobot veio doutro sítio. Mamãrobot é roupa suja, tábua-de-engomar e alguidar. Mamãrobot está sempre a tropeçar. Mamãrobot veio de muito longe, com um saco preto enfiado na cabeça e uma mala a tira-colo. Parecia um susto!

Mamãrobot anda em casa, e tem direcção assistida. Mas está sempre a tropeçar. Às vezes enche-se de ar para não se magoar. Mamãrobot é de um cinzento cromado, ela lava e seca lágrimas sem cobrar. Mas ela própria não pode chorar, porque assim vai enferrujar. Tem que beber óleo preto para funcionar.

Coitada Mamãrobot!

quinta-feira, 5 de março de 2009

a rosa sem senão/refresco de limão

Trazes-me um refresco? Marte e Júpiter esperam por mim, trás e frente são-no ao avesso, Mas isto já não dá nada com nada, E eu morro de solidão. Estou só de Sol ou lá de Lá ou dó de Dor: que não posso sem um desejo de morrer ou desesperar, E fico assim, No abismo abismada, Nem só de Sol ou lá de Lá, só dó de Dor.

Ouve o teu respiro, Olha o teu umbigo, Diz-me o que vês e traz-me a solução, De que não, Há Rosas sem senão. E depois deixas-me em paz, Trazes-me um refresco de limão, Porque Marte e Júpiter chamam por mim. E dás-me boleia até ao céu. Ou então não, e eu dou-te um abraço e posso descansar em Paz.

Deixa-me em Paz! Quero morrer sozinha, ou então com muitas flores coloridas, Rosas sem senão. Quando me vou embora? Marte e Júpiter esperam por mim. Acho que já estou a voar, Sou uma imbecil.

Afoga-te rapariga, Afoga o rapaz também, Tira a coroa ao teu imperador. Maldita Rosa sem flor. Espelho triste, dourado, ò Rei! E a tua coroa de flores mortas. Escuta o teu respiro, Tira-me o sonho da nuvem. Desfá-lo quando eu disser, E dá-me aquilo que pedi: um refresco de limão.

Não tenho pachorra para aturar, Outro mal que não o meu. E sinto-me a morrer, E depois? Perguntas-te. O que queres que eu diga? Meu cretino. Não me afoguei nas tuas rosas mortas. Mas não me queixo de ninguém, Nem de mim.

Estou sozinha e estúpida, feita um bobo da corte. Mas não sou burra, Meu caro rei e progenitor. Deste-me vida, mas deixo-te rei criador. E a ti também, Maldita rosa sem flor. A vós vos condeno!

quarta-feira, 4 de março de 2009

o teu grito

É a espera.
Está frio cá fora, o céu está nublado, e a estrada é tão larga, não a quero atravessar. Não há semáforos onde estou, por isso espero que atravesses tu esta estrada.
Para te pores em perigo por causa de mim. Farás isso? Ou o teu orgulho não to permite? É o meu jogo: Tenho o Ás de Espadas apontado ao teu peito. Sei que não tens medo, pões-te a falar dos filósofos da terra e deixaste de olhar o céu.
Dás-me ouvidos, mas eu peço-te mais. Dá-me a mão e segura-a forte até eu dizer pára.
Alguns carros passam depressa, não têm cor, trazem a velocidade - é a medida do nosso tempo. Há silêncio na velocidade do tempo. E nos intervalos de tempo é que vives. E tu vives em mim. Morres se eu não te der razão de existir.
És o meu divertimento.
Tu falas-me dos teus filósofos, dos teus deuses e poetas. Mas em mim tens a Criação. E assim sou deus. Contentas-te com deus? Corro menos riscos se for um deus, sabes?
Passou agora um carro, vejo longe os prédios dos subúrbios. Vejo a tua vida lá dentro e eu, cá fora, dou-te a escolha da liberdade comigo ou a prisão do teu mundo de fantasmas. Passa o tempo, mas não me julgues aflita, não te dou esse gozo.
Mas já é demasiada noite em cima de mim. Não deixes que o dia nasça sobre mim. Não me deixes. Isso não, tenho medo, mas não to digo.
À noite os cães vadios correm sem medo, os amantes confiam segredos, os lençóis arrefecem dos corpos suados de uma qualquer erupção de vida. As luzes cá fora, morrem pálidas à tua espera e eu com elas.
Tu vens a caminho, corres provavelmente, depois abrandas o passo antes do virar da esquina, regulas a respiração e caminhas sério para mim. O teu coração bate, doí-te o peito, anseias.
Eu disfarçarei o sorriso que me provocas - escondo as mãos, para não pensares que te abraçarei. Podes ficar quieto, que não me magoa o teu silêncio. Deuses orgulhosos que somos nós! Ajoelhamos-nos um ao outro, frágeis. E no entanto, cara a cara, de joelhos, medimos a força um ao outro. E qual de nós vai primeiro cair.
Sentei-me, ali naquele banco de jardim, debaixo daquela árvore.
Não saberás dizer onde estou, agora.
Antecipo o teu olhar de desespero. Se não chamares o meu nome , deixarei de existir e tu só, novamente, também. Por isso quando não me vires, chama por mim. Podes gritar, que não me importo.
Porque é que nunca gritas por mim? Escondo-me de propósito e esforço-me para te ouvir dizer o meu nome. Coisa fugaz que és, foges no tempo. Foges de ti próprio e eu já não tenho força para correr mais. Tu e a tua voz muda! Grita, chora ou ri!
Porque sei que quando gritares, o teu tempo vai parar, e vais cair, e aperceber que só em mim podes cair. Estender-te-ei os meus braços. Podemos ensaiar quando vieres.
Mas quando vieres grita por mim.