sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Extracto do diário da Drª Beffy Santiago


Mais um dia para esquecer. Tenho pilhas de Direito Económico a amontoarem-se na minha secretária, estou com umas dores de cabeça horríveis. E.. o meu contacto na Randolph&Drone resolveu perder o Blackberry logo hoje!! E depois delegam sempre tudo em mim, claro ...porque é solteira, porque não tem filhos, porque isto e aquilo e aquele outro. Onde raio me fui meter, "Dá à Beffy, que ela trata" - Se o cretino do Baltasar entrar no meu gabinete amanhã de manhã a perguntar se conseguimos o cliente, eu juro que lhe atiro com os Decretos-Lei e a inteira Regulação do Mercado à cara. A Lara do Salão diz que me ando a desleixar, pudera..! tenho lá eu tempo para ir arranjar o cabelo e as unhas. Como se alguém notasse, pff. Burra de carga, Beffy! Burra de carga! Diz que desde o divórcio ...bolas, quatro anos como passam. Enfim, a Lara tem razão. Isto não pode continuar. Espera só para veres, Baltasar: acho que a Randolph&Drone se vai cortar. O quê? Eu? Eu vou sair mais cedo Baltasar, tenho uma reunião importante com a Lara do Departamento da Vida.



Nota: Beffy deixou a firma onde trabalhava e tornou-se famosa colunista numa prestigiada revista de enologia onde conheceu o seu parceiro actual, um empresário vinícola do Norte. Baltasar foi despedido por ter perdido a R&D e não ter tido bom poder de argumentação para defender a sua mais-valia na empresa.

Extracto do diário do poeta/escritor Jaquelino Bragão Travassos

Que a terra húmida, como ventre primordial me acolha de novo neste vendaval silencioso em que me encontro, ò eterna paz e revolução da juventude, vós sumistes tal como a luz que agora vejo, coada pelos vitrais desta catedral a que o povo chama velhice. Tudo é neblina e já não vejo o sangue pulsar-me nas veias nem o ímpeto do jovem que eu era. A miudagem é a força, o bulício da brincadeira, o murmúrio constante de um riacho que corre e corre e não cansa até que alguém diz pára, chegaste ao mar, agora descansa. Ninguém avisa, não há sinais, corre e escorre a vida por entre vales, rochas, montanhas e barragens que inadvertidamente construímos para nós. Num só sentido corre contra-relógio, para esse eterno retorno à terra que nos viu nascer. Vivo em memórias, enquanto Deus mo permitir. Vivo no pretérito-perfeito quando nada na vida foi perfeito. Tal é a tristeza de envelhecer.


Nota: Jaquelino B. Travassos nunca chegou a ultrapassar a barreira do anonimato. Ele também nunca existiu. Considerava-se acima de tudo um poeta com raízes profundas na sua terra natal onde era muito admirado por todos, e de onde nunca saiu. Aí veio a falecer.