quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Louco Penteado

A realidade é divertida às vezes. A vida ri-se de coisas também. Não é boa, nem má. É simplesmente tola.

Os Cabeleireiros dão profundidade àquilo que deve permanecer na superfície das coisas. Por chamarem esfera à bola, não podem brincar com ela. Pensam esfericamente, em formas perfeitas e não se contentam com menos que a perfeição. Como dizer, por exemplo, que O Dedo do Pé nunca pode ser abreviado à enésima casa decimal e daí ser-lhe conferido aquele símbolo particular. Eles pensam em forma de perguntas cujos pontos de interrogação são traçados a régua, esquadro e laca. Com uma acutilante meta-tesoura, correm sôfregos atrás das perguntas que fazem, mas desprezam as respostas que encontram pelo caminho.

Os Cabeleireiros fazem muitas perguntas e, inevitavelmente perguntarão se não serão todos loucos. Se chegam à conclusão que não são, não sentem alívio nem descanso, antes atormentam-se com a sua consciência até encontrarem uma falha no Penteado. Se o são, não deveriam ter disso a consciência, excepto se de uma loucura temporária sofressem, que os permitisse olhar de fora para dentro. Como o mundo olha, atónito, para o Dedo do Pé.

Ou, quem sabe, como o Dedo do Pé olha atónito para o mundo? Talvez a consciência esteja no Dedo do Pé, talvez o Penteado mais louco seja aquele que não se desmanche, aquele que resista à noite e que nos diz que somos tão iguais na manhã seguinte -- mas não tão diferentes que nos olhem com reprovação quando saímos para a rua. Que não é fácil habitar ao lado da consciência. É aterrador, e quem explora os seus meandros acaba sempre saltando da janela estatelando-se no chão.

E se as pessoas não morrem, ficam a chorar no asfalto. Aí, os transeuntes que chamam bola à esfera chamam a ambulância e nem percebem que o que o Cabeleireiro está a tentar dizer é que o deixem morrer. A consciência lá de cima olha para isto e não percebe nada, olha e murmura palavras em surdina para uma repórter de imagem. Alguns Cabeleireiros atribuíram a isto uma carga simbólica de sabedoria. E assim, o louco Penteado passou a moda.