sábado, 18 de fevereiro de 2012

a matemática do bem maior

O Generalíssimo entrou triunfante pela porta adentro. Ansioso, esperava ver a nova decoração do seu gabinete. O Tenente-Coronel esperava-o, confortavelmente sentado no cadeirão do Generalíssimo, atrás da imperial e faustosa nova secretária de mogno com tampo de mármore e de pernas esguias que faziam lembrar as colunas do Olimpo. Este, pasmado com o atrevimento, abriu demasiado o olho caindo-lhe assim o monóculo que ficou estupidamente a balançar da corrente dourada e reluzente que o prendia da bolsinha da farda militar cor de azeitona que vestia impreterivelmente todos os dias, impecavelmente engomada sem quaisquer vincos.
O Tenente-Coronel esboçou um sorriso familiar, suas mãos repousavam calmamente nos braços do cadeirão do Generalíssimo, ao mesmo tempo que o enxergava com uma displicência curiosa, quase infantil.
Mas o Generalíssimo não via nada para além de ser um outro qualquer a ocupar-lhe o lugar e, para ele, o semblante do Tenente-Coronel era igual ao dele de todos os dias, o de seu braço-direito, leal e conformado com as suas extravagâncias e exigências. O Generalíssimo deu um passo atrás – o primeiro em toda a sua vida, pensou aterrado. E o Tenente-Coronel por fim ergueu-se e sempre impávido, desejou-lhe os bons dias e saiu do gabinete num passo estacado muito próprio da sua pessoa. Naqueles segundos acabara de fazer as contas da matemática de uma revolução: as incógnitas, naquela situação em particular, revelavam-se maiores que as variáveis, implicando — do ponto de vista estratégico ou teórico — a ausência de um plano táctico que na prática auferisse resultados desejáveis. O bem maior ficaria comprometido. A matemática não andava longe da ética, pensava ele, enquanto olhava para o relógio de pulso, admirando o rigor do ponteiro dos segundos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Razordawn


Razordawn: 
cuts the skin,
tears away your heart
and gives it back to you.
You take it, you need it,
and you have to say thank you.



The hunting knife that
opens the wound of another day.

Another time.

Another life. 




— Shhh... they'll wake up!
A scream at the distance.

Muddy footprints.

A red-blood cherry lost in the way.