segunda-feira, 30 de abril de 2012

o piano

Que direito tens tu, ó artista ou mestre
de batuta mágica,
de atirares um piano, assim,
para a noite dos assassinos?
Piano vagueia perdido ao relento
doce e pesaroso de andamento
e chora alegres majestosos
em noites tímidas de lua cheia.

A rapariga compadece-se,
mais ninguém.
Estende-lhe a mão,
e a música que dela virá
não soará mais à violência
do grito solene e estridente,
ou da brusquidão tirana e demente
do artista ou mestre.

A rapariga e o piano
são melodia de pássaros
que fazem um ninho
e que ganham asas
na mais funda e dilacerante
ferida da humanidade
no meio sujo da cidade,
esgoto profundo e escondido
onde as almas tristes habitam
alegres, mas não muito.

terça-feira, 10 de abril de 2012

cobertor do medo

enrolei o segredo
em volta do dedo
como se fosse um novelo
e fiz um cobertor.

com o peso de um pesadelo
adormeci cedo
debaixo do segredo
feito de lã quente e de gelo.

e não sonho mais o pesadelo
porque agora desfio o novelo
com o dedo

e porque debaixo do cobertor
está um computador que não brinca
com o medo.