terça-feira, 21 de julho de 2015

Dias inertes





Sobre os pombos e as pessoas, as pessoas e os pombos, e os cães e os ratos que andam por aí sem sapatos.

Os pombos são cinzentos e os ratos também são. Não se sabe onde dormem, não se sabe o que comem. Sabe-se aquilo que se vê apenas durante o dia. Mas de noite tudo é indecente porque a noite chega sempre indiferente a velar o dia que passa lento, que escorre e ferve como o cimento se há rancor e ressentimento.

Então os pombos e as pessoas cruzam-se com os ratos sem ninguém saber, trocam mensagens secretas sobre a tristeza de viver enquanto andam por aí descalços até o tendão doer.

E os cães que ladram entre eles choram os donos que lhes dão de comer.

Pombos e ratos são cinzentos. Eles são da cor do cimento porque têm a coragem de o ser — à luz inerte do dia.

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